A igreja local e o universitário


Relação conflituosa entre pastores e universitários

Tensa tem sido muitas vezes a relação entre o universitário e seus pastores e líderes. Há uma tendência do universitário, por causa de sua formação, de se rebelar contra a estrutura e seus líderes, afastando-se do convívio eclesiástico. Os líderes para se livrarem de possíveis problemas, devido a esses questionamentos, muitas vezes permitem que estes saiam, até mesmo para não contaminar outros. Perde-se o papel profético dentro das igrejas e o pecado se enraíza. Deve haver por parte dos líderes eclesiásticos uma maior valorização e compreensão do universitário. 

Para esta geração de jovens questionar é uma forma de se conectar. Em geral, os líderes preferem jovens que não questionam, que se acomodam, que sejam dependentes deles. Estes jovens cresceram questionando seus pais a respeito de tudo, e como, universitários, onde são ainda mais estimulados a questionarem a realidade, certamente irão fazer isso com seus pastores e líderes também. Porém, eles precisam considerar que estes jovens foram formados desta maneira e que este questionamento não é contestação ou desafio à sua liderança, é só uma forma de se conectar. 

A Igreja precisa ouvir as opiniões e sentimentos dos universitários criando espaços de escuta e diálogo. Este é um alerta que serve aos pastores e líderes,

Faltam espaços de escuta e de diálogo no interior da Universidade para conhecermos melhor o nosso público, suas indagações, seus preconceitos, seus anseios, suas representações e seus questionamentos. Naturalmente ouviremos o que não nos agrada, o que nos choca, o que talvez nos obrigue a pensar, o que nos force a estudar. Urge uma mudança de mentalidade por parte dos responsáveis que mais fomentasse a liberdade de expressão e a cultura do diálogo no interior do campus universitário.¹


Os pastores e líderes também precisam conhecer seus universitários. Muitos são de gerações diferentes destes universitários, com valores e atuações diferentes, e não podem esperar que seus membros universitários atuem da mesma forma que eles agiram em sua época. Os pastores e líderes precisam entender que esta nova geração não é pior nem melhor do que as outras, apenas diferente. Esta geração possui fraquezas e virtudes como qualquer outra geração. Cada geração possui luzes e sombras e os pastores e líderes precisam conhecer as características desta geração de universitários.

Muita preocupação, pouca ação

Em uma pesquisa com jovens universitários evangélicos todos disseram que ouviram na Igreja preocupação deles abandonaram a fé na universidade. Na mesma pesquisa foi perguntado se sua Igreja tinha algum trabalho específico de preparação para eles enquanto universitários. Todos disseram que não. Todos disseram também que achariam muito interessante ter um trabalho específico na Igreja para eles, enquanto universitário. Os universitários escutam de seus pastores, líderes de juventude, pais, familiares e outros adultos próximos sobre a preocupação deles abandonarem a fé, por estarem na universidade, mas nada ou pouco têm feito para ajudá-los neste processo. Os jovens abandonados a eles mesmos dificilmente manterão a fé tradicional, especialmente aqueles que entram na Universidade… Muitos jovens, ao entrar especialmente na Universidade e defrontar com as críticas ferrenhas da modernidade à religião, perdem toda referência de fé por falta de preparação². Uma das universitárias afirmou que gostaria apenas de ouvir de seu pastor que ele estava orando por ela. Esta jovem ouvia sempre de seu pastor e familiares da preocupação deles com ela perder a fé na universidade, mas nunca tinha ouvido de seu pastor que ele orava por ela. Simples atitudes podem fazer toda a diferença na vida de um universitário.

Os universitários precisam participar ativamente em sua Igreja 

A Bíblia é clara afirmando para ninguém deixar de se reunir como Igreja (Hebreus 10.25). Interessante que as pesquisas mostram que os jovens gostam de ir à igreja. Em uma pesquisa realizada pela UNESCO com a juventude brasileira, foi perguntado aos jovens: “O que você mais gosta de fazer no seu tempo livre, mesmo que você só faça de vez em quando? ”. Dentre tantas respostas, chamou a atenção o fato de “ir à igreja/culto” ser a resposta mais alta junto com “ir à praia” e “ir dançar/baile”, ficando à frente de “ir ao shopping” (16%) ou “ir à festa na casa de amigos” (15%)³. Isso mostra que jovem brasileiro gosta de participar das atividades da igreja. Com tantos jovens na população brasileira, com o aumento do número de evangélicos, juntamente com o fato do jovem gostar de ir à igreja, era de se esperar que o número de jovens nas igrejas evangélicas também aumentasse significativamente. Porém, várias são as razões que podem levar os universitários a não se reunirem mais como Igreja. 

(1). Vivemos hoje em uma sociedade fortemente marcada pelo consumo e o jovem acaba pensando a Igreja também numa forma de consumo. O pensamento é, o que posso ganhar lá? O que posso consumir? Mas esta ideia é totalmente contrária ao Evangelho de Cristo. O universitário precisa pensar onde pode servir e não naquilo que pode consumir. Jesus não veio para ser servido, mas para servir (Mateus 20.28), e a espiritualidade cristã é uma espiritualidade do serviço e não do consumo. (2). Em segundo lugar, existe a questão do hedonismo, de uma cultura do prazer. A questão não é negar totalmente o prazer ou a alegria, mas o jovem precisa entender que seguir a Cristo exige renúncia, sacrifício, negar o próprio eu, tomar a cruz diariamente e segui-lo, ou como diz Walter Kasper, “é preciso amar a igreja com todas as suas manchas e rugas, assim como Cristo amou a igreja e se entregou por ela (Efésios 5:25)”. (3). Outra questão importante é o problema da falta de tempo. Sabe-se que a rotina de um universitário é bastante intensa. Tantas atividades como aulas, estágios, iniciação científica, dentre outras coisas, faz com que o universitário evangélico acabe não priorizando muitas vezes sua participação na Igreja. Porém, apesar das inúmeras tarefas realizadas pelo universitário, o que determina seu tempo é a sua prioridade. Não existe falta de tempo. Trata-se de prioridade. Para as realidades a que atribuímos importância, temos tempo. À medida que a deslocamos para grau de menor relevância, então o tempo disponível não alcança. Não se pode fugir de tamanha responsabilidade apelando para falta de tempo.

Movimentos estudantis cristãos como problema ou solução?

O grande desafio para esta juventude universitária é entender como ser Igreja dentro do ambiente estudantil. O jovem precisa vivenciar sua fé em Cristo neste ambiente universitário. E os movimentos estudantis cristãos que atuam nas universidades preparando e auxiliando estes jovens cristãos a vivenciarem a fé dentro deste ambiente acadêmico podem servir de grande ajuda, especialmente aqueles que possuem adultos que se dispõem a ajudar os jovens. De acordo com Libânio, “Faz-se sempre importante a presença de adultos dedicados e com qualidades para trabalhar com jovens. É ela que garante a constância. Os grupos de jovens entregues a eles mesmos costumam nascer como cogumelo depois de chuva e fenecer como erva no final de dia ensolarado”.

A Cru Campus tem contribuído para o fortalecimento da fé destes jovens evangélicos e, consequentemente, têm favorecido o engajamento destes na Missio Dei. A fé se fortalece no anúncio do Evangelho. Porém, “a capacidade de falar e testemunhar da maioria dos cristãos chegou a um nível muito baixo. Diante disso é muito importante a presença de Movimentos que ajudem os jovens universitários a vivenciarem sua fé. A Cru Campus é um Movimento dirigido pelos próprios estudantes. Os jovens, principalmente os universitários, não se percebem como uma categoria desfavorecida e não querem ser passivos de programas pastorais. Esses estudantes querem ter voz ativa e participar dos processos de mudanças. Na Cru Campus, os jovens universitários são os protagonistas, mas também existem missionários adultos ajudando a esses jovens universitários a vivenciarem sua fé dentro dos seus campi. As pessoas que trabalham com juventude percebem que os jovens necessitam do apoio dos adultos e que é necessária uma atuação voltada para fora da igreja. Com tudo isso, percebe-se a enorme importância de movimentos estudantis que atuam dentro das universidades públicas e privadas de nosso país ao contribuírem na formação da mente e coração desses estudantes.

Porém, o engajamento destes jovens universitários nesses movimentos não pode servir de justificativa para se ausentarem de suas igrejas. A Cru Campus é uma comunidade acolhedora de estudantes apaixonados por conectarem pessoas a Jesus e a Cru trabalha sempre junto com a Igreja. Nenhum missionário da Cru pode estar desvinculado de uma igreja. Muitas vezes na ânsia de estabelecerem Movimentos em todos os lugares, os missionários desconsideram as igrejas e contribuem para a ausência destes universitários nas igrejas, causando um desserviço ao Reino. A Cru não pode se transformar num feliz e autossuficiente gueto cristão, à margem da Igreja, sem nenhum compromisso com ela, pois o que acontecerá a estes universitários após a conclusão de seus cursos? Os universitários se achegam a esses Movimentos por causa das redes de afinidades que possuem. Todos são jovens, universitários, vivem muitos dilemas parecidos, mesmos gostos, há muitas afinidades. Já nas igrejas locais há muitas diferenças, de idades, de gerações, hierarquias, pensamentos, problemas. Mesmo assim, os jovens evangélicos ao aderirem a esses movimentos estudantis não podem desvincular-se de suas igrejas de origens ou deixar de frequentar uma igreja local. Na igreja ouve-se a Palavra de Deus, tendo a convicção de que é a mensagem que o Senhor enviou. Na igreja os irmãos e irmãs encontram-se com o Senhor. Na igreja se aprende a viver em comunhão, principalmente com quem é diferente, a exercer o principal dom de Deus, o amor que provém dele. A beleza da igreja está no fato de cada um poder oferecer o que é seu para o enriquecimento dos demais. As igrejas locais devem incentivar seus jovens universitários a participarem dos Movimentos estudantis dentro das universidades, e os Movimentos estudantis devem incentivar e ensinar a importância da igreja local para a vivência da fé deste jovem e sua participação na Missio Dei

Maurício Jaccoud, pastor e missionário da Cru Brasil há 15 anos.
Doutor em Teologia pela PUC-Rio com a tese “O rosto do jovem universitário evangélico”.
mauricio.costa@cru.org.br.

Referências Bibliográficas
1. MIRANDA, Mario de França in Atualidade teológica: Revista do Departamento de Teologia PUC-Rio. – Ano XIX, n. 49 (jan./abr. 2015), – Rio de Janeiro: PUC-Rio, Dep. Dep. Teologia/Letra Capital, 2015, p. 18.
2. LIBANIO, J. B. Jovens em tempos de modernidade: considerações socioculturais e pastorais. São Paulo: Edições Loyola, 2004, p.44.
3. ABRAMO, Helena Wendel; BRANCO, Pedro Paulo Martoni. Retratos da juventude brasileira: análises de uma pesquisa nacional. São Paulo: Instituto Cidadania, Fundação Perseu Abramo, 2005, p. 418.
4. KASPER, W. A Igreja católica. Essência, realidade, missão. São Leopoldo: Unisinos, 2012, p. 424.
5. LIBÂNIO, J. B. Para onde vai a juventude? São Paulo: Paulus, 2011, p. 172.
6. LIBANIO, 2004, p.94.
7. KASPER, 2012, p. 426.
 

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